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terça-feira, 9 de março de 2021

Recurso contra ação antidumping que encarece lápis importado da China deve ser julgado amanhã


Câmara de Comércio Exterior (Camex) irá deliberar sobre solicitação da Associação Brasileira de Fabricantes e Importadores de Cores de Artigos Escolares (ABFIAE) que altera valor de insumo básico para estudantes em até 50%.
A Associação Brasileira de Fabricantes e Importadores de Cores de Artigos Escolares (ABFIAE) aguarda para amanhã, dia 10, deliberação da Câmara de Comércio Exterior (Camex), do Ministério da Economia, sobre o recurso com o qual ingressou para contestar medida antidumping do órgão que aplica sobretaxa sobre os lápis importados da China. Caso não se reverta a decisão, haverá aumento de até 50% no preço final dos produtos no mercado interno, com ônus estimados entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões anuais para o erário em verbas destinadas a milhões de estudantes brasileiros.

A medida, que resulta de processo originado em 2019, a pedido da Faber-Castell e da BIC, estabelece taxa média de sobrepreço de U$ 1,77 por quilo (12 caixas), podendo chegar US$ 5,55/kg. Porém, o impacto médio sobre o preço final do lápis importado deve superar a 50% somente em decorrência da sobretaxa, sem incluir os demais tributos decorrentes desta. Em um mercado tão competitivo, tal variação inviabiliza a importação. É importante também destacar que a tributação sobre materiais escolares já é excessiva no Brasil.

"Ademais, a China é o centro da cadeia global de lápis de madeira, e mesmo empresas que produzem em outros países têm o gigante asiático como sua principal fonte de insumos (grafites e madeiras), fazendo com que as opções tenham um custo no mínimo 50% a 60% maior ou ainda mais", observa Sidnei Bergamaschi, presidente da ABFIAE, acrescentando: "Porém, ainda que se desejasse comprar desses fornecedores pagando-se esse prêmio, pelas regras de definição de origem da Receita Federal do Brasil, muitos desses fornecedores localizados em nações alternativas não conseguiriam enquadrar-se como "produtor originário" ou não teriam a capacidade produtiva para tal, já que atualmente praticamente 90% das importações de lápis provêm da China".

Ou seja, o que seria, em tese, uma medida para coibir a importação da China, na realidade, praticamente fechará todo o mercado para lápis de madeira importado. Para o presidente da ABFIAE, a origem do processo em si, baseada em falta de competitividade, causa estranheza, já que os produtos da Faber-Castell e da BIC são competitivos em mercados como o Chile, em que são tributados com taxa de importação, enquanto os chineses entram sem qualquer imposto, devido a um acordo de livre comercio entre os dois países.

Do ponto de vista comercial, a entidade aponta que a medida reforçará a formação do duopólio (Bic e Faber-Castell) já existente, tendo em vista que as mesmas empresas, que já contam com entre 60% e 70% do mercado comercial de lápis, deverão ter sua concentração aumentada para até 80% ou 90% de todas as vendas do produto no Brasil. Na prática, o que a medida fará é bloquear a concorrência, deixando o mercado na mão de duas multinacionais que sequer têm proteção similar contra as importações de lápis de origem chinesa em seus países de origem (França, no caso da BIC, e Alemanha, no da Faber-Castell).

"Ao mesmo tempo, estamos falando, em termos concretos, de um forte processo de renúncia fiscal, pois o governo perderá receita tributária federal gerada nessas operações de importação (imposto de importação e PIS/COFINS) e não contará com contrapartida por conta de eventual aumento da produção da Faber-Castell e da BIC, pois ambas desfrutam de fortes benefícios e incentivos fiscais", explica Bergamaschi.

Além da perda tributária, o erário terá significativo aumento de custos no tocante à aquisição de material escolar para alunos de escolas públicas, num momento em que faltam recursos até mesmo para o atendimento à população no combate à Covid-19. Considerando a majoração média de 50% dos lápis importados, o impacto direto estimado será entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões por ano para os governos federal, estaduais e municipais, dependendo da proporção a ser adquirida dos importadores e dos fabricantes nacionais. É importante ressaltar que estes últimos, ao terem sua concorrência diminuída ou eliminada, terão todas as possibilidades de aumentar seus preços indiscriminadamente, principalmente ao chegarem próximo à sua capacidade produtiva. Esse valor pode ainda aumentar com o passar dos anos, uma vez que o antidumping levará a um desincentivo à importação.

Defesa da livre concorrência

Bergamaschi revela que, diante da possibilidade da imposição dessa sobretaxa, a ABFIAE colheu cartas de 120 empresas atuantes no setor, que, juntas, têm um faturamento superior a R$ 5 bilhões ao ano e que se colocaram inteiramente a favor da livre concorrência e da importância de não terem cerceado o seu direito de estabelecer parceria comercial com quaisquer fornecedores. "Ficou claro que, como em qualquer economia de mercado saudável, os clientes são favoráveis à competição leal, ética e transparente", ressalta, informando que associações atacadistas, de varejo e de papelaria também já se posicionaram contrariamente ao antidumping, preocupadas com o aumento da virulência comercial das duas empresas, já existente hoje em todas as negociações.