Poemas Imparcialistas
Uma Grande Novidade
Esperamos por novidades,
por algo extraordinário nessa paisagem de todos os dias.
A louça certamente vai para a pia,
o lixo tem que ser colocado lá na calçada nas quartas-feiras,
e ainda temos que levar o trabalho para casa nesse fim de semana.
Normal, nada está fora de controle
Não há novidade
na rotina e no cotidiano.
Os dias vão passando previsíveis e programados,
temos essa angústia por novidades,
porém parei para pensar:
caso o mundo fosse feito de novidades e dinamismos,
estaríamos em um universo que se expande a olhos vistos,
mas isso não ocorre, nosso mundo
precisa de materialização e maturação…
Essa angústia por novidade,
essa espera para que as questões que formam esse mundo e esse cotidiano
sejam definitivamente resolvidas é uma incompreensão do mundo,
já que o mundo é a paisagem cotidiana.
A novidade pode ser acidental
tanto para o bem quanto para o mal.
Esse desejo de novidade se deu em qualquer tempo.
Não é diferente nesse contexto em que a humanidade
está com medo da inteligência artificial.
Eu não simpatizo com essas máquinas bisbilhoteiras,
gosto mesmo é de gente;
gosto porque não somos máquinas,
somos a grande novidade abstrata e descontrolada.
Elas sim são mais abstratas,
e até podem se dar ao capricho de ter seus dias de surtar.
Conheço ruelas que ficam longe essas máquinas mexeriqueiras
com olhos que tudo vê,
com ouvidos que tudo escuta,
e com inteligência que tudo sabe.
Esse fim que não chega!
E o fim do mundo não chega!!!
esperamos o fim dos tempos
feito quem não sai de casa esperando um temporal.
Tantas vidas chegaram ao fim esperando o mundo acabar.
O mundo está ficando todo troncho,
todo arrebentado
feito um japonês magrinho e muito trabalhador,
que conheci quando era criança, mas não acaba!
agoniza e não morre!
Certamente o mundo chegará ao fim,
uma grande catástrofe virá,
mas não posso ficar sentado esperando!
vou vivendo sem esperar por ela.
Quando vejo uma plantinha que nasce entre pedras
sei que a natureza por si só regenera,
basta que não as arranquemos quando elas
nascerem entre as paredes, entre as pedras, na rachadura do asfalto,
em cima das pontes, dentro das calhas...
E o mundo que não acaba!!!
deixe que o mundo acabe, seja lá como for!
só não gosto de vê-lo agonizando.
não estou parado esperando que ele acabe,
mas a roda da vida está girando,
feito um pneu que um menino solta ladeira abaixo.
O fim dos dias virá,
quem sabe depois de minha passagem por essa terra,
onde vivo feito um forasteiro em qualquer lugar.
Quantas pessoas já morrerem esperando o fim dos tempos!?
José Nunes Pereira
Estou de passagem e não me importo.
Não vou dizer que me importo,
porque realmente, não me importo.
É patético ver essa multidão esperando um salvador;
aquele que dirá por onde ir,
aquele que trará o que comer e o que vestir,
aquele que dirá o que pensar e sentir,
aquele que fará tudo para o bem estar de seus seguidores.
Já foi falado que não há um salvador.
Essa gente quer um salvador que facilite suas vidas.
quer vê-lo sacrificando sua própria carne em favor dos seus adoradores.
O salvador e seus auxiliares falam a mesma língua
e dizem que sacrificam por todos...
Estou sempre de passagem, sou forasteiro,
não me importo com a crença das pessoas,
não me importo com as promessas do salvador delas,
estou de passagem e não me importo.
Sou um transeunte,
porém não posso deixar de notar que as pessoas esperar um salvador.
Gostaria de iludir me e fazer parte de alguma coisa,
gostaria beber disso, escapar e iludir me feito um bêbado.
José Nunes Pereira
Quem vai para a outra margem desse rio...
Quem vai para a outra margem desse rio,
não vai para a outra margem do rio,
esse se expande feito o universo
que se expande a medida que avanço no espaço,
quanto ao tempo,
fica a ilusão de que existe
dentro do processo de existir sobre muitas formas e estados.
A consciência transpassa a margem do rio da morte,
e sei que não existe margem para o rio da morte,
o rio da morte e o rio vida se trançam e são a mesma coisa,
de certo modo de olhar,
como uma rua após a outra,
um rio após o outro,
um desaguar no universo
e ser a perpétua existência em estados e formas distintas.
A eternidade é o perpétuo desaguar no oceano cósmico,
ser deixado na praia,
ser levado pelo mar.
A consciência paira sobre tudo,
feito voz sem corpo, é o som consciente de Ser.
J.Nunes
Dispersão
A sociedade materialista
foi além do materialismo
e da negação do mundo espiritual,
transformando a espiritualidade em "manifestação cultural".
A espiritualidade faz dualidade com o materialismo,
logo, a espiritualidade e o materialismo existem.
O que é negado é confirmado
pela própria possibilidade de negar e afirmar.
Esta negação da dimensão espiritual do homem,
essa dispersão na diversidade e na multiplicação de si mesmo
na tentativa incoerente e insana de se encontrar;
essa tentativa de se encontrar na multiplicidade psicológica é igual
a quem caminha em direção oposta de onde quer chegar
e ainda tem esperança de chegar.
José Nunes Pereira
POSSIBILISMO
As lições que meu pai deixou
são feitas de ações que ele não realizou,
caminhei na contramão do que ele fez,
e falo ao contrário do que ele falou.
O mundo não vai parar
enquanto você lamenta.
Aprendi a caminhar por onde havia caminho,
e abrir passagem onde não havia passagem,
aprendi a comer o que tinha para comer,
e andar por onde dava para andar,
porém nunca deixei de ser otimista,
sempre acreditei que posso derrubar muralhas
feito as trombetas de Jericó.
O fato de meu caminho ser mais difícil,
o fato de tentarem me impedir o caminho
não me faz melhor nem pior que ninguém,
isso apenas mostra que eles tem medo,
porque eu não me sinto subjugado.
O porque de eu ter essa dificuldades na vida
é questão reencarnacionista,
e as compreendo ao meu modo espiritualista.
J.Nunes
Vaporoso
Ser qualquer coisa é sempre um desperdício.
Não quero ser muito intensamente,
prefiro ser um personagem,
ser por um instante...
um breve instante de ser.
É tanta gente chata impondo ser isso,
aquilo e tudo isso,
e eu não quero ser nada,
ser é cansativo.
O que eu sei é que tem que haver consistência em ser,
tem que existir unidade de ser,
ser disperso é vaporoso e impermanente,
porém afirmar ser qualquer coisa é tão utópico quando afirmar ser tudo...
melhor é não tentar ser qualquer coisa,
melhor é não autoafirmar em nada.
De todo modo se é tudo e não se é nada.
Tanto faz, evaporo feito a fumaça do cigarro,
mais vale ficar a observar que sou tão dissipável
quanto a fumaça do cigarro.
Esse que vê que sou vaporoso e inconsistente
é o que tenho de mais próximo da unidade e da concretude de ser.
J.Nunes
Lamentações
A alegria de viver o momento,
a consciência de existir a cada instante
é a única autoafirmação que, definitivamente, compensa.
A lamentação é tão patética,
o passado está em nossa memória e em nosso sentimentalismo;
está apenas lá, não tem qualquer consistência no mundo,
o futuro é outra forma de lamentação incongruente,
lamentamos a vida como quem senta na areia
e lamenta a morte da onda que se desfaz na praia.
Somos nos que paramos para lamentar nossas memórias,
o ciclo infindável da vida e da natureza continua
e não se importa com nossas lamentações,
a natureza se alimenta de si mesma, e chamamos essa autoalimentação
de vida e morte.
Quanto mais lamentamos,
mais perdemos nossa consistência de existir dentro das memórias lamuriosas,
mais ficamos presos a essa roda da vida e da morte
que é vida que se autoalimenta.
Vale mais estar aqui ao pé no mar,
afirmar esse alegria de estar ao pé das águas
e ser eu mesmo, como toda potência de ser agora.
J.Nunes
As Classes dos Incultos
O governo dividiu o seu país em classes e subclasses,
Os mais ricos estavam na classe A,
Os menos ricos estavam na classe B
Os pobres estavam na classe C,
os mais pobres estavam na classe D,
os miseráveis estavam na classe E;
porém as classes ainda estavam divididas em subclasses,
A+ rico e culto, A- rico e sem cultura,
B+ menos rico e culto, B- menos rico e sem cultura,
C+ pobre e culto, C- pobre e sem cultura,
E+ miseráveis cultos, E- miseráveis e sem cultura.
Os critérios do Governo para considerar um indivíduo culto
era a sua aceitação ao sistema de Governo e sua política;
por esses critérios eram distribuídas as oportunidades e as riquezas.
Muitos indivíduos eram realmente "equivocados sinceros"
muitos outros eram demagogos, hipócritas e oportunistas;
Aqueles tidos como incultos pelo governo
eram sinceros a suas convicções
e não se vendiam em troca de benefícios e oportunidades;
esses conseguiam se manter nas classes e até mesmo subir
na classe dos incultos com muito sacrifício e astúcia,
porém jamais fariam parte da elite culta do país.
O Governo do país não ignorava que entre as classes não havia equilíbrio
e que não era possível o relativismo
e o nivelamento nem mesmo dentro das classes;
haviam conflitos, aflições, invejas, sofrimentos, dúvidas, doenças, indiferenças, disputas...
dentro de todas as classes e nas subclasses das classes,
Os indivíduos não atendiam rigorosamente aos parâmetros de cidadão perfeito,
segundo os padrões do governo.
Para resolver as questões o governo adotou um critério muito objetivo:
Aceitar, não questionar e militar a favor do governo.
Os equivocados sinceros são os melhores cidadãos;
porém não participam do jogo,
simplesmente porque não compreendem o jogo.
Quando o Governo percebeu, na prática, que era impossível
unificar os indivíduos e ao mesmo tempo
representar a todas e atender a todas as diferenças dentro dos grupos,
o Governo criou o critério da Manutenção do Poder
pela aceitação do indivíduo ao Governo.
O individuo passava a ter a sua individualidade respeitada
a partir do momento que aceitava defender o Poder vigente.
Era uma espécie de conversão que garantia o perdão, a liberdade e a oportunidade.
O Governo do país pensou que havia encontrado uma ideologia perfeita para sua nação,
no entanto, dentro das classes cultas começou surgir a cobiça,
a inveja, o medo, a ganância, a intriga...e, naturalmente, ocorreu separações
dessas classes cultas em cultos radicais, cultos moderados
e cultos equivocados que não sabiam que tudo é um jogo de retóricas.
O que está ocorrendo naquele país é que os tidos como incultos
estão aproveitando os excessos ideológicos dos "equivocados sinceros"
e estão criando uma forma de Poder que se pauta no mérito do trabalho,
no respeito à individualidade, na sanidade e na coerência,
sem precisar da conversão à ideologia imposta pelo governo.
J.Nunes
Afirmação
Não sou o que a mente pensa,
nem mesmo o que o pensamento afirma.
O pensamento afirma qualquer coisa a qualquer momento;
afirma em um pensamento e dessa firma em outro.
Sou o que é a consciência no silêncio da mente
e na comunhão com o coração.
Ser não está na mente e nem em qualquer afirmação
que eu ou outros façam a meu respeito.
Ser está na ausência de pensamento e afirmações de ser.
No momento que esquecemos o que afirmamos com a mente,
deixamos de ser este que com tanto custo afirmamos,
e por um instante e somos o a ilusão e devaneio do pensamento,
no entanto até mesmo a nossa afirmação mais concreta de ser
é uma ilusão de ser, porém consolidada,
por isso sempre retornamos a ela.
José Nunes Pereira
Dirijo pela velha estrada dos silos,
sento no parapeito da ponte.
Quem vê de longe
pensa que sou um depressivo, um suicida
ou um criminoso esperando uma oportunidade.
Nada disso,
sou apenas um homem comum e meditativo.
Nunca dei por isso, nunca pensei que essa necessidade de fugir,
é na verdade uma necessidade de estar sozinho
me situar no tempo e no espaço.
A vida foi sempre muito difícil...
sempre me pareceu um capricho descabido ter um tempo e um lugar
para ficar sozinho, pensar na vida,
saber por onde estou caminhando...
Hoje vim até a ponte porque senti
que eu não quero fugir para nem um lugar,
tudo que eu preciso é de um lugar para sentar,
pensar e organizar minha vida e meus pensamentos;
um cigarro poderia ser uma bela companhia.
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José Nunes Pereira
POETAS BRASILEIROS